por Elaine Silveira www.unicidade.org

Quando falamos sobre alimentação e vida consciente logo pensamos em veganismo. O que é ser vegano? Não consumir, vestir, etc… nada de origem animal, certo? No entanto, rótulos sobre vegetarianismo, veganismo, frugivorismo, crudivorismo, etc muitas vezes trazem junto muito julgamento e nem sempre significa que um seja melhor do que o outro no que diz respeito ao conceito “cruelty free”. E que talvez o mais importante seja a consciência do quanto a escolha dos seus alimentos vai impactar no sofrimento dos animais e no meio ambiente, independente da classificação que sua alimentação se enquadre. Isso porque promover a dieta vegana com o slogan “cruelty free” é um projeto ambicioso mas longe de ser real, na qual não consumir nada que envolva o sacrifício e crueldade animal é uma utopia no mundo atual.

76% das espécies de primata estão tendo seus habitats destruídos por conta da expansão da agropecuária.

A agricultura é um dos sistemas de produção de alimentos mais cruéis, que inclui devastação de florestas e destruição de habitats, pulverizações nas lavouras que matam centenas de aves e diversas espécies de animais, contaminando e expondo o solo, a água, o ar, flora, fauna e comunidades com poluentes e danos irreversíveis. Apenas 1% dos agrotóxicos atinge o alvo. 99% vão para o ambiente.

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No dia seguinte à dispersão de pesticidas os agricultores têm que recolher e cavar um buraco gigante para jogar todas as aves e animais mortos, tamanho extermínio. Isso sem falar nas armadilhas e estratégias para controle de pragas e para se livrar dos animais e insetos indesejados que invadem as lavouras. Gases tóxicos e inflamáveis, líquidos fumigantes, agentes espumantes e bombas de fumaças são bombeadas em tocas.  Animais silvestres, javalis, queixadas, catetos, serpentes, gambás e outros roedores morrem afogados, enveneados, em armadilhas ou são queimados vivos. Pássaros, insetos, mamíferos, peixes, invertebrados marinhos e qualquer outra espécie que se atreva a chegar perto estão condenados ao envenenamento.

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Tudo isso sem mencionar que até que os herbicidas cheguem ao destino final, já contaminaram o ar, a terra, vias fluviais e subterrâneas, afetando plantas e animais. Aves, peixes e outros organismos aquáticos são os mais prejudicados.

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Assim como todas as indústrias, a agricultura envolve várias fases desde o desmatamento, destruição de habitats, aradura e fertilização da terra que exigem uma mecanização de processos, energia, testes em animais, poluentes e liberação de gases de efeito estufa. A devastação e destruição do habitat natural dos porcos-do-mato, javalis e capivaras, por exemplo, está aumentando o ataque desses animais às lavouras e, consequentemente, seu extermínio pelos agricultores que precisam de livrar dos invasores.

Praticamente todas as atividades de cultivo levam à degradação da terra sob formas de acidificação, salinidade, esgotamento orgânico do solo e de nutrientes, compactação, contaminação química, declínio da fertilidade da terra, poluição de ecossistemas aquáticos, erosão….O processo de fertilização e dispersão de pesticidas testados em animais fazem do Brasil o campeão mundial no uso indiscriminado de agrotóxicos, que está levando à extinção de várias espécies, entre elas as abelhas.

E, por falar em abelhas, essas incansáveis trabalhadoras fazem parte do processo de polinização das agriculturas, mas não de maneira natural como se pensa. Os agricultores dependem de abelhas “produzidas em fábricas” para a polinização, isso porque pelo menos 75% de todas as culturas alimentares dependem dessas operárias. As colmeias são transportadas de campo a campo para trabalharem na polinização. O mel é um item secundário e pouco rentável para os apicultores, cuja principal rentabilização vem do aluguel de suas abelhas para a agricultura. Não consumir produtos de origem da apicultura implicaria então em deixar de consumir amêndoas, maçãs, abacate, amendoim, brócolis, cebola, couve-flor, cenoura, alfafa, abóbora, pepino, cereja, framboesa, amoras, morangos, kiwi, ameixas, girassol, soja e muitos outros alimentos que envolvem exploração de bilhões e bilhões de abelhas que passam por exames e manuseios de rotina, alimentação artificial, inseminação artificial, manipulação genética, etc.

Todos vegetarianos, veganos….sabem bem das consequências no ecossistema das pastagens de gado, mas o que dizer das monoculturas de milho, soja e algodão, que já ocupam 41% da área total do cerrado brasileiro? Onde há cultivo em massa há morte e danos ao ecossistema. Tanto é verdade, que o Brasil ocupa o segundo lugar mundial no cultivo de transgênico e é campeão mundial no uso de agrotóxicos. Quando o assunto é organismo geneticamente modificado, chegamos também no algodão, o queridinho dos naturalistas. Meu também, confesso, até porque as nossas escolhas de roupa têm um impacto significativo no meio ambiente. A indústria da moda é a 2 ª Indústria mais poluente. Porém, quando vejo essa imagem, percebemos outro cenário devastador.

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Vamos então falar um pouco do algodão. O que dizer dos prejuízos à diversidade causados pelas monoculturas, como por exemplo o algodão. 95% das lavouras de monoculturas são de sementes transgênicas cultivadas com a ajuda de agrotóxicos. As culturas homogêneas esgotam o uso de pesticidas e herbicidas em grande escala, uma vez que aumentam a vulnerabilidade das culturas a patógenos e doenças que podem ser devastadores quando infestam as plantações. Além disso, o algodão está entre as espécies transgênicas mais comuns e disseminadas mundialmente, assim como a soja, o milho, o tomate, a batata, o açúcar e o arroz.

A tecnologia dos transgênicos é baseada na inserção de material genético com características desejáveis ao cultivo, a principal delas é a resistência a herbicidas, liberando os agricultores a espalhar venenos em suas plantações com um impacto devastador sobre os animais, o solo e a atmosfera. E nem vamos nos aprofundar no fato de que o monopólio da Monsanto proíbe os produtores a utilizarem sementes que as próprias plantas produzem, sendo obrigados a comprar novos lotes da Monsanto a cada ciclo, o que gera mais produção em massa, mais embalagem, mais transporte, mais rotulagem, mais consumo, mais desperdício, mais ganho para os grandes produtores, mais perdas para o planeta.

No entanto, todo o sofrimento envolvido nesse processo e suas consequências ficam invisíveis quando o produto final chega às prateleiras, levando a auto ilusão de que uma dieta vegetariana é livre de crueldade animal.

Partimos então para uma opção mais consciente e saudável, que são os alimentos orgânicos. Mas você sabia que na agricultura orgânica também há extermínio biológico e, inclusive, é permitido o uso de farinha de osso como fonte de fósforo e pó de sangue como fonte de nitrogênio? Enfim, isso sem falar das armadilhas e formas não menos cruéis de se livrar dos animais invasores nas plantações.

Pois é meus amigos. Seria perfeito se não houvesse nenhum dano nem sofrimento para colocar nosso alimento na mesa. Mas alguém pode dizer que sua alimentação e estilo de vida não envolvem o sacrifício de algum animal nem dano ao ecossistema???? Infelizmente não, ninguém pode. Evitar qualquer produto que tenha conexão com desmatamento e crueldade animal é praticamente impossível. A não ser que a pessoa produza seus próprios alimentos e consuma apenas o que dá no seu quintal, não conseguimos verdadeiramente sair desse sistema cruel da alimentação.

Sinceramente, o que é pior? Consumir um item comprado na feira que envolveu a morte de muitos animais e aves nas lavouras, ou um ovo de uma galinha que vive solta ciscando no seu quintal? Consumir alimentos de uma agricultura que explora as abelhas ou o mel de uma ou duas caixas de um pequeno produtor para consumo próprio?

Tudo isso nos mostra que a produção de alimentos tem muitas formas de crueldade, tanto animal quanto dos direitos humanos, como exploração de crianças, trabalho escravo e muitas formas de injustiça que são comuns na agricultura. Como entrar no mérito de qualquer julgamento que seja?

Não estou aqui defendendo o consumo da carne ou produtos de origem animal. Mas a crueldade está longe de se limitar aos abatedouros de granjas e frigoríficos. E nisso os conceitos de vegetarianismo, veganismo, etc muitas vezes trazem junto muita pretensão, uma grande carga de ilusão, pouca informação e um tanto de arrogância de achar que um é mais comprometido com os animais do que o outro ao afirmar que segue uma alimentação “cruelty free”.

Para falar em comida sem crueldade muita coisa está sendo ignorada. Afirmar isso requer levar uma vida ética e moral de forma a minimizar todos os danos que a alimentação pode causar em qualquer espécie viva. Requer se informar acerca dos direitos humanos e animais envolvidos no alimento que você coloca na sua mesa.

O desejo de ter uma alternativa alimentar consciente deve envolver muita informação e humildade, para não perder o senso crítico e clareza no assunto. Na minha opinião, mais importante do que um rótulo de veganismo, vegetariamismo, crudivorismo, etc..é a consciência real do quanto a seu estilo de vida e a origem do alimento que você consome vão impactar no sofrimento dos animais, no meio ambiente e na mão de obra humana.

Independente da classificação que sua alimentação se enquadre, até onde vai a sua consciência de que nenhum animal precisa sofrer ou morrer para que você possa viver?

Enquanto o sofrimento dos animais e a exploração humana não forem completamente eliminados, teremos apenas uma ilusão de que estamos fazendo o melhor. E nisso, parece que Viver de Luz é a melhor opção. Porque, se não der certo, o único mal que você fez foi a você mesmo.

Mantenha a Humildade, SEMPRE!!! O que você faz pensando ser o melhor pode estar muito longe de ser o ideal e o melhor para os animais e para garantir um planeta saudável para você e para as futuras gerações.

E, então, voltamos ao título dessa postagem:

Faça o seu melhor, mas não pense que o seu melhor é o melhor que se pode fazer!!!

Elaine Silveira   – Yoga, Meditação em Movimento

Já passei duas vezes pelo processo de Viver de Luz, que envolve ficar 21 dias sem comer. Fiquei sem comer nenhum tipo de carne por anos mas também já voltei a comer peixe. Há alguns anos fiquei 6 meses me alimentando apenas de frutas, fiquei por um longo período apenas nos sucos e depois retomei a dieta vegetariana. Também já fui adepta do crudivorismo. Tenho o hábito de fazer jejum intermitente e às vezes jejuns mais prolongados de alguns dias. Atualmente minha alimentação se aproxima mais da dieta cetogênica, com exceção das carnes que não consumo. Compro meus alimentos semanalmente na feira orgânica do Parque da Água Branca e procuro apoiar e comprar de empresas éticas e de comércio justo mas, sinceramente, sei que não atinjo 100% de êxito pois já comprei de farsantes que se diziam orgânicos e que posteriormente foram expulsos da feira do Parque da Água Branca. Esse é o Brasil. Não consumo cosméticos testados em animais e procuro fazer o possível para me alimentar de maneira saudável e com o menor impacto no ecossistema, mas não tenho conhecimento de todo o processo de produção dos fornecedores de quem compro os alimentos. Acredito que há exagero na quantidade de comida ingerida e que não precisamos de tanto para sobreviver. Reduzir a quantidade de alimentos e fugir das agriculturas em massa pode fazer diferença, optando pelos pequenos produtores. No entanto, também tenho vida social e algumas vezes como fora de casa ignorando algumas dessas regras. Sobretudo, tenho certeza de que ainda estou muito longe do ideal.

Gratidão!!!

© Elaine Silveira, unicidade.org, 2016. É proibido o uso não autorizado e / ou duplicação deste material sem a permissão expressa e por escrito da autora deste site. Trechos e links podem ser utilizados, desde que o crédito seja claro e dado no início da postagem à Elaine Silveira, unicidade.org, com direção adequada e específica para o conteúdo original https://unicidade.org/2016/12/07/veganismo-vegetarianismo-frugivorismo-crudivorismoe-o-reconhecimento-de-que-ainda-estamos-muito-distantes-de-uma-alimentacao-cruelty-free/.

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